(e por que isso muda tudo para quem quer viver com mais clareza, presença e paz interna)
Janeiro chega com a estética das recomeços: agenda nova, planos, metas, promessas. E, junto dele, o Janeiro Branco, campanha que convida a sociedade a falar sobre saúde mental. O convite é importante — mas ele precisa ir além do senso comum. Porque saúde mental não é um tema “bonito” para começar o ano: é uma realidade estrutural que sustenta (ou derruba) tudo o que desejamos construir.
Como psicóloga clínica há quase três décadas, vejo um ponto que se repete com frequência no consultório: pessoas inteligentes, trabalhadoras, sensíveis, que sabem o que seria melhor para si — mas não conseguem sustentar mudanças. Não é falta de vontade. Não é “fraqueza”. É algo mais profundo: um sistema nervoso que aprendeu a sobreviver.
E isso é o oposto de preguiça. É biologia.
O mundo está falando de saúde mental — porque os números exigem
A Organização Mundial da Saúde já vinha alertando para o peso crescente dos transtornos mentais. Em 2021, a OMS estimou que cerca de 1 em cada 7 pessoas no mundo (1,1 bilhão) vivia com algum transtorno mental, com ansiedade e depressão entre os mais comuns. Organização Mundial da Saúde
E há um marco importante: no primeiro ano da pandemia de COVID-19, a prevalência global de ansiedade e depressão aumentou cerca de 25%, segundo a OMS — um salto que não foi apenas estatística, mas experiência coletiva: medo, luto, insegurança, isolamento, sobrecarga, rupturas. Organização Mundial da Saúde+1
Mesmo após o pico da emergência, a OMS segue apontando que o avanço das respostas ainda é insuficiente e que o mundo precisa ampliar o acesso a cuidado efetivo. Organização Mundial da Saúde+1
Ou seja: não estamos falando de uma “moda” emocional. Estamos falando de uma questão de saúde pública, produtividade, vínculos, qualidade de vida — e, principalmente, dignidade.
E o Brasil? Quando a estatística encontra a vida real
No Brasil, há um dado amplamente citado em publicações científicas e relatórios que ecoa com força: o país aparece com taxas elevadas de ansiedade (cerca de 9,3%) e entre as maiores para depressão (aprox. 5,8%), com referência a levantamentos usados pela OMS e discussões acadêmicas. SciELO+2PMC+2
Mas dados ganham profundidade quando olhamos para recortes de risco.
A Fiocruz, por exemplo, tem apontado sinais preocupantes entre jovens: aumento de internações e menor procura por ajuda, além de alertas sobre risco de suicídio em faixas específicas. Fiocruz+1
E, em informes recentes com base em dados nacionais, há registros expressivos de internações por transtornos mentais no país no período recente (2022–2024), o que chama atenção para o peso do tema no sistema de saúde. Agência Fiocruz
O que isso nos diz? Que há sofrimento real, crescente, e que “dar conta” não significa estar bem.
O problema do discurso raso: “é só controlar a mente”
Existe uma ideia sedutora — e cruel — de que saúde mental se resolve com disciplina: “pense positivo”, “agradeça”, “seja forte”, “pare de dramatizar”. Esse tipo de mensagem até pode soar motivador para algumas pessoas em momentos pontuais, mas falha quando o sofrimento está enraizado em experiências não elaboradas.
Muita gente chega dizendo:
“Eu sei o que tenho que fazer, mas não consigo.”
Essa frase é uma pista clínica importante. Ela revela que a pessoa não está em falta de informação; ela está em excesso de carga.
Quando existe trauma (e aqui incluo também traumas relacionais, repetitivos, silenciosos), o cérebro aprende a responder ao mundo por meio de estratégias de proteção: hipercontrole, hipervigilância, congelamento emocional, dificuldade de confiar, necessidade de agradar, medo de errar, autocobrança extrema.
Isso não é escolha consciente. É adaptação.
Trauma não é só o que aconteceu. É o que ficou “preso”
Trauma não precisa ser um único evento “grande”. Muitas vezes, ele se forma quando alguém viveu repetidamente:
- medo sem acolhimento
- abandono emocional
- invalidação afetiva
- pressão excessiva e solidão interna
- situações em que não havia saída
- momentos em que o corpo queria reagir, mas precisou se calar
O corpo registra isso. O sistema nervoso aprende. A mente racional segue tentando “dar conta”. E a vida segue… até o custo aparecer: ansiedade, depressão, crises de pânico, compulsões, relacionamentos adoecidos, esgotamento, falta de energia, sensação de vazio.
A pessoa não está “quebrando”. Ela está sobrecarregada de história.
Saúde mental é tratamento — não aconselhamento
Aqui eu gosto de ser muito clara: psicoterapia séria não é “bater papo para desabafar”. Desabafar pode aliviar. Mas muitas vezes não transforma.
Psicoterapia, quando bem conduzida, é um processo clínico. Exige técnica, ética, raciocínio, método, leitura de contexto, e respeito ao tempo do sistema nervoso.
Na minha prática, trabalho com abordagens focadas em processamento e regulação neuroemocional, como EMDR e Brainspotting, que ajudam a acessar memórias e registros do corpo que nem sempre estão disponíveis pela linguagem. Isso não significa “apagar o passado”. Significa retirar o corpo do modo ameaça, para que a pessoa deixe de reagir como se ainda estivesse vivendo o mesmo perigo.
Quando o cérebro consegue processar adequadamente experiências que ficaram “interrompidas”, algo profundo muda:
- a ansiedade perde combustível
- o sono melhora
- a mente fica menos acelerada
- a pessoa deixa de se punir tanto
- escolhas passam a ser mais livres
- vínculos se tornam menos reativos
Isso não é mágica. É processo.
Janeiro Branco, na prática: um convite à responsabilidade emocional
Se eu pudesse resumir Janeiro Branco em uma frase, seria:
saúde mental é responsabilidade — não culpa.
Não é culpa ter sido ferido. Não é culpa ter adoecido.
Mas é responsabilidade perceber quando estamos vivendo no automático, anestesiados, endurecidos, ou sempre no limite.
Há uma diferença importante entre funcionar e viver.
Muitas pessoas funcionam: trabalham, entregam, sustentam, produzem.
Mas não vivem com presença. Não descansam por dentro. Não conseguem sentir alegria sem medo de perder. Não conseguem relaxar sem culpa.
Esse é um sinal clássico de que o sistema nervoso está “ocupado demais” tentando garantir segurança.
“Mas eu tenho uma vida boa…” — e mesmo assim me sinto mal
Essa é uma das frases mais comuns no consultório, especialmente em pessoas que são referências: líderes, profissionais exigentes, pessoas com alta capacidade de desempenho, mães e pais que sustentam muito, indivíduos que são “fortes” para todos.
Sucesso externo não regula o sistema nervoso.
Agenda cheia não cura história emocional.
Performance não resolve dor acumulada.
Pelo contrário: muitas vezes a excelência vira uma armadura.
E uma vida de alto desempenho sem cuidado emocional se torna uma vida cara:
cara para o corpo, para os vínculos, para a saúde, para a alma.
O que realmente muda um ano?
Ano novo não muda porque o calendário muda.
Um ano muda quando a pessoa faz um movimento interno consistente.
E aqui vai uma verdade delicada:
mudanças profundas exigem investimento.
Investimento de tempo, de energia, de coragem, e — sim — financeiro.
Porque cuidado emocional é construção de base.
E construir base é o que permite que a pessoa cresça sem desmoronar.
Um fechamento ético (e um convite)
Se você está começando o ano com a sensação de que “algo precisa mudar”, talvez não seja sobre criar mais metas. Talvez seja sobre criar mais verdade interna.
Você não precisa esperar “piorar” para se cuidar.
Saúde mental também é prevenção.
Janeiro Branco pode ser o mês de frases bonitas — ou pode ser o mês da sua decisão mais madura: tratar a raiz do que te aprisiona.
E quando a raiz é tratada, o futuro deixa de ser uma repetição do passado.








