Durante muitos anos, acreditou-se que a infância era apenas uma fase que “passa”. Que experiências difíceis poderiam ser superadas com esforço, amadurecimento ou força de caráter. A psicologia do trauma e a neurociência contemporânea mostram algo muito diferente: o que acontece na infância não passa — se organiza no corpo e no cérebro.
Hoje sabemos, com base em décadas de pesquisa, que experiências adversas na infância aumentam significativamente o risco de sofrimento psíquico na vida adulta, incluindo ansiedade, depressão, transtornos do humor, abuso de substâncias, dificuldades relacionais e adoecimento físico. Esse conhecimento não serve para rotular pessoas, mas para compreender, prevenir e tratar.
O que são Experiências Adversas na Infância (ACEs)
O conceito de Adverse Childhood Experiences (ACEs) surgiu a partir de grandes estudos populacionais que investigaram a relação entre vivências adversas na infância e saúde ao longo da vida.
Essas experiências incluem, entre outras:
- abuso físico, emocional ou sexual
- negligência emocional ou física
- convivência com violência doméstica
- pais com dependência química ou transtornos mentais
- separações traumáticas
- perdas precoces
- ambientes marcados por medo, instabilidade ou imprevisibilidade
Importante destacar: não é apenas o evento em si que gera impacto, mas a ausência de proteção emocional suficiente para a criança lidar com aquilo.
Uma criança não tem recursos neuroemocionais para regular sozinha medo, dor ou abandono. Quando isso acontece repetidamente, o sistema nervoso se adapta para sobreviver.
O Teste ACE: um instrumento de consciência, não de diagnóstico
O teste ACE é amplamente conhecido entre profissionais que trabalham com trauma. Ele não é um diagnóstico psicológico, nem um rótulo definitivo. É uma ferramenta de mapeamento de risco, que ajuda a compreender o quanto determinadas vivências adversas estiveram presentes na infância.
Quanto maior a pontuação no ACE, maior a probabilidade estatística de dificuldades emocionais, comportamentais e de saúde ao longo da vida.
Mas, atenção:
➡️ Risco não é destino.
➡️ O teste aponta vulnerabilidade, não sentença.
O valor do ACE está em tornar visível algo que muitas pessoas carregam sem nome:
“Talvez eu não seja fraco. Talvez eu tenha vivido demais cedo demais.”
O impacto neurobiológico do trauma precoce
Quando uma criança cresce em ambientes adversos, o cérebro aprende a funcionar em modo de ameaça. O eixo do estresse (hipotálamo–hipófise–adrenal) pode permanecer hiperativado, produzindo níveis elevados de cortisol por longos períodos.
Isso impacta diretamente:
- a regulação emocional
- a memória
- a atenção
- o sono
- a resposta ao estresse
- a percepção de segurança
O cérebro se desenvolve priorizando sobrevivência, não descanso.
Na vida adulta, isso pode se manifestar como:
- ansiedade crônica
- hipervigilância
- dificuldade de relaxar
- medo constante de errar
- necessidade excessiva de controle
- relações marcadas por dependência ou afastamento
- depressão funcional
- sensação persistente de vazio
Nada disso é “frescura”. É neuroadaptação.
“Mas eu tive uma infância difícil e dei certo”
Essa é uma frase comum — e compreensível.
Muitas pessoas com histórico de adversidade desenvolvem alta capacidade de funcionamento: tornam-se responsáveis, produtivas, resilientes, líderes. Mas, é importante diferenciar resiliência funcional de regulação emocional saudável.
Dar conta não significa estar bem. Funcionar não é o mesmo que descansar internamente. A clínica mostra que muitas dessas pessoas pagam um preço alto: exaustão emocional, relações difíceis, dificuldade de sentir prazer, ansiedade constante ou episódios depressivos que “não fazem sentido” do ponto de vista racional.
O corpo lembra do que a mente tentou esquecer.
A boa notícia: o cérebro é plástico
Aqui entra um ponto essencial e esperançoso: o cérebro é plástico ao longo de toda a vida.
Isso significa que experiências adversas não determinam para sempre o funcionamento emocional. Mas elas precisam ser processadas, não apenas compreendidas intelectualmente.
É por isso que muitas pessoas dizem: “Eu entendo minha história, mas continuo reagindo do mesmo jeito.”
O entendimento ajuda. Mas, não reorganiza o sistema nervoso sozinho.
Psicoterapia de trauma: tratar a raiz, não apenas o sintoma
Abordagens como EMDR e Brainspotting foram desenvolvidas justamente para acessar memórias e registros emocionais que ficaram armazenados de forma disfuncional.
Esses métodos permitem que o cérebro:
- integre experiências antigas
- atualize a percepção de segurança
- diferencie passado e presente
- reduza reações automáticas
- amplie a sensação de escolha
O trabalho não é apagar o passado. É retirar o passado do comando do presente.
Quando isso acontece, sintomas como ansiedade e depressão deixam de ser “inimigos” e passam a ser compreendidos como sinais de algo que precisava ser cuidado.
Janeiro Branco como prevenção e consciência
Falar sobre experiências adversas na infância é um ato de prevenção. Não para culpar famílias ou reviver dores, mas para romper ciclos silenciosos.
Cuidar da saúde mental também é reconhecer que ninguém começa a vida do mesmo ponto. Algumas pessoas precisaram amadurecer cedo demais. Outras nunca se sentiram realmente seguras.
Janeiro Branco, nesse contexto, não é sobre prometer felicidade.
É sobre oferecer consciência, responsabilidade e possibilidade de cuidado.
Um fechamento necessário
Se você se reconheceu em partes deste texto, isso não significa que algo esteja “errado” com você. Significa que sua história merece respeito — e talvez, cuidado especializado.
Traumas precoces não definem quem você é. Mas, ignorá-los pode limitar quem você pode se tornar. Psicoterapia de profundidade não é luxo.
É reparação.
E quando a reparação acontece, o futuro deixa de ser apenas repetição.








