Psicóloga Mestre Marínea Fediuk

CRP: 12/01526

Expert em Traumas

– Metodologia Aplicada EMDR e Brainspotting

– Mais de 40 mil horas de atendimentos clínicos


Psicóloga Mestre Marínea Fediuk

CRP: 12/01526

Expert em Traumas

– Metodologia Aplicada EMDR e Brainspotting

– Mais de 40 mil horas de atendimentos clínicos

Blog da Dra. Marinea Fediuk

Blog da Dra. Marinea Fediuk

Experiências adversas na infância: quem viveu carrega mais risco de sofrimento emocional na vida adulta

Durante muitos anos, acreditou-se que a infância era apenas uma fase que “passa”. Que experiências difíceis poderiam ser superadas com esforço, amadurecimento ou força de caráter. A psicologia do trauma e a neurociência contemporânea mostram algo muito diferente: o que acontece na infância não passa — se organiza no corpo e no cérebro.

Hoje sabemos, com base em décadas de pesquisa, que experiências adversas na infância aumentam significativamente o risco de sofrimento psíquico na vida adulta, incluindo ansiedade, depressão, transtornos do humor, abuso de substâncias, dificuldades relacionais e adoecimento físico. Esse conhecimento não serve para rotular pessoas, mas para compreender, prevenir e tratar.

O que são Experiências Adversas na Infância (ACEs)

O conceito de Adverse Childhood Experiences (ACEs) surgiu a partir de grandes estudos populacionais que investigaram a relação entre vivências adversas na infância e saúde ao longo da vida.

Essas experiências incluem, entre outras:

  • abuso físico, emocional ou sexual
  • negligência emocional ou física
  • convivência com violência doméstica
  • pais com dependência química ou transtornos mentais
  • separações traumáticas
  • perdas precoces
  • ambientes marcados por medo, instabilidade ou imprevisibilidade

Importante destacar: não é apenas o evento em si que gera impacto, mas a ausência de proteção emocional suficiente para a criança lidar com aquilo.

Uma criança não tem recursos neuroemocionais para regular sozinha medo, dor ou abandono. Quando isso acontece repetidamente, o sistema nervoso se adapta para sobreviver.

O Teste ACE: um instrumento de consciência, não de diagnóstico

O teste ACE é amplamente conhecido entre profissionais que trabalham com trauma. Ele não é um diagnóstico psicológico, nem um rótulo definitivo. É uma ferramenta de mapeamento de risco, que ajuda a compreender o quanto determinadas vivências adversas estiveram presentes na infância.

Quanto maior a pontuação no ACE, maior a probabilidade estatística de dificuldades emocionais, comportamentais e de saúde ao longo da vida.

Mas, atenção:
➡️ Risco não é destino.
➡️ O teste aponta vulnerabilidade, não sentença.

O valor do ACE está em tornar visível algo que muitas pessoas carregam sem nome:
“Talvez eu não seja fraco. Talvez eu tenha vivido demais cedo demais.”

O impacto neurobiológico do trauma precoce

Quando uma criança cresce em ambientes adversos, o cérebro aprende a funcionar em modo de ameaça. O eixo do estresse (hipotálamo–hipófise–adrenal) pode permanecer hiperativado, produzindo níveis elevados de cortisol por longos períodos.

Isso impacta diretamente:

  • a regulação emocional
  • a memória
  • a atenção
  • o sono
  • a resposta ao estresse
  • a percepção de segurança

O cérebro se desenvolve priorizando sobrevivência, não descanso.

Na vida adulta, isso pode se manifestar como:

  • ansiedade crônica
  • hipervigilância
  • dificuldade de relaxar
  • medo constante de errar
  • necessidade excessiva de controle
  • relações marcadas por dependência ou afastamento
  • depressão funcional
  • sensação persistente de vazio

Nada disso é “frescura”. É neuroadaptação.

“Mas eu tive uma infância difícil e dei certo”

Essa é uma frase comum — e compreensível.

Muitas pessoas com histórico de adversidade desenvolvem alta capacidade de funcionamento: tornam-se responsáveis, produtivas, resilientes, líderes. Mas, é importante diferenciar resiliência funcional de regulação emocional saudável.

Dar conta não significa estar bem. Funcionar não é o mesmo que descansar internamente. A clínica mostra que muitas dessas pessoas pagam um preço alto: exaustão emocional, relações difíceis, dificuldade de sentir prazer, ansiedade constante ou episódios depressivos que “não fazem sentido” do ponto de vista racional.

O corpo lembra do que a mente tentou esquecer.

A boa notícia: o cérebro é plástico

Aqui entra um ponto essencial e esperançoso: o cérebro é plástico ao longo de toda a vida.

Isso significa que experiências adversas não determinam para sempre o funcionamento emocional. Mas elas precisam ser processadas, não apenas compreendidas intelectualmente.

É por isso que muitas pessoas dizem: “Eu entendo minha história, mas continuo reagindo do mesmo jeito.”

O entendimento ajuda. Mas, não reorganiza o sistema nervoso sozinho.

Psicoterapia de trauma: tratar a raiz, não apenas o sintoma

Abordagens como EMDR e Brainspotting foram desenvolvidas justamente para acessar memórias e registros emocionais que ficaram armazenados de forma disfuncional.

Esses métodos permitem que o cérebro:

  • integre experiências antigas
  • atualize a percepção de segurança
  • diferencie passado e presente
  • reduza reações automáticas
  • amplie a sensação de escolha

O trabalho não é apagar o passado. É retirar o passado do comando do presente.

Quando isso acontece, sintomas como ansiedade e depressão deixam de ser “inimigos” e passam a ser compreendidos como sinais de algo que precisava ser cuidado.

Janeiro Branco como prevenção e consciência

Falar sobre experiências adversas na infância é um ato de prevenção. Não para culpar famílias ou reviver dores, mas para romper ciclos silenciosos.

Cuidar da saúde mental também é reconhecer que ninguém começa a vida do mesmo ponto. Algumas pessoas precisaram amadurecer cedo demais. Outras nunca se sentiram realmente seguras.

Janeiro Branco, nesse contexto, não é sobre prometer felicidade.
É sobre oferecer consciência, responsabilidade e possibilidade de cuidado.

Um fechamento necessário

Se você se reconheceu em partes deste texto, isso não significa que algo esteja “errado” com você. Significa que sua história merece respeito — e talvez, cuidado especializado.

Traumas precoces não definem quem você é. Mas, ignorá-los pode limitar quem você pode se tornar. Psicoterapia de profundidade não é luxo.

É reparação.

E quando a reparação acontece, o futuro deixa de ser apenas repetição.

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